Questões Digitais

Questões Digitais. Este podcast está na minha cabeça desde que entrei no doutorado na UFBA, lá pelos meados de 2020. Mas a pandemia e os muitos chamados da vida me pediram para postergar seu lançamento. Neste meio tempo até lancei dois projetos em formato de podcast que também me cutucavam por dentro, o A Partir de Agora, com crônicas da vida, e o Poesias Baianas, que fez parte do conjunto de ações me levaram ao lançamento do meu livro de poesias Caboclos, Poetas e Zumbi: poesias soterolitanas.

E lá vamos de mais um podcast: Questões Digitais

Certo é que o Questões Digitais vem ao encontro do meu principal interesse e linha de estudo acadêmico, a cultura digital. Meu trabalho de conclusão de curso investigou a presença de marcas nas redes sociais, minha dissertação trabalhou em cima do impacto do aplicativo Waze nas cidades brasileiras que possuem Centros de Controle Urbanos e minha pesquisa doutoral sai atrás do que há de inovador e das transformações da relação entre inteligências artificiais e o jornalismo. Moisés é tec!

Do que vou tratar?

Mas não só de academia viverá o Questões Digitais. A cultura digital é mais ampla que pode enxergar nosso vã olhar. Afeta como vivemos e viveremos nos próximos anos e décadas. Do nascer do sol ao repouso do luar estamos imersos numa sociedade cada vez mais digital e dataficada. Mesmo aqueles que, assim como muitos indígenas e tribos africanas, escolheram o isolamento têm suas vidas mediadas, de alguma maneira, pelas transformações digitais.

Questões Digitais terá formato desconhecido. Vou fazendo e descobrindo o que fazer. De cara, ouvirão comentários meus, presumidamente, semanalmente. Contudo, tentarei fazer entrevistas e bate-papos com especialistas dos diversos eixos de estudos da cultura digital.

Não prometo muito. Sei que já fiz promessas demais com relação aos podcasts – de tirar a poeira do A Partir de Agora e do Poesias Baianas – e por isso vou com calma ao pote. Sei que vai ter um pouco de água pra beber ainda. Pra mim e para você, suposto ouvinte.

Bom, sem mais delongas. Segue o piloto do Questões (já estou até dando apelido ao coitado querido).

Vigilância artificial em São Paulo: o que isso pode significar

Smart Sampa é projeto da Prefeitura de São Paulo que quer reconhecimento facial e monitorar cor dos cidadãos

A cidade de São Paulo planeja contratar sistemas de vigilância inteligente para reconhecer “criminosos e vadiagem”. É, “vadiagem” mesmo! Seriam mais de 20 mil câmeras para esse monitoramento, além de integrar outras tantas câmeras e bases de dados já construídas por órgãos municipais. Hoje essas câmeras, sistemas e bases de dados não estão integrados. Ao integrá-los, a capital paulista quer criar um “Smart Sampa”, como é chamado o projeto.

Segue, como falamos aqui na Bahia, o gueri oficial:

A Smart Sampa tem previsão de integrar mais de 20 mil câmeras até 2024 e busca a modernização e ampliação no monitoramento de câmeras na Capital, agregando o conceito de Cidades Inteligentes. A iniciativa permitirá maior eficácia e agilidade no atendimento de ocorrências da Guarda Civil Metropolitana e demais órgãos de segurança.
A Smart Sampa possibilitará um monitoramento mais inteligente e especializado graças ao uso de analíticos, permitindo que os órgãos de segurança possam promover a filtragem instantânea de imagens de ocorrências. Com recursos de identificação facial e detecção de movimento, as câmeras reconhecerão atitudes suspeitas, pessoas procuradas, placas de veículos e objetos perdidos.

A nova plataforma ainda facilita a integração de diversos serviços municipais, como CET, SAMU, Defesa Civil e GCM, em uma única plataforma por meio da criação de uma moderna Central de Monitoramento Integrada.
Além disso, com as novas câmeras, os órgãos de segurança terão como monitorar escolas, UBS e demais equipamentos públicos, aumentando significativamente a segurança nesses locais. As câmeras técnicas contarão ainda com monitoramento de calor, facilitando a supervisão em praças e parques, que normalmente possuem árvores e áreas verdes que podem prejudicar uma vigilância mais precisa.

Em resumo, ele é baseado em três pontos:

  • Reconhecimento facial;
  • Monitoramento das mídias digitais;
  • E detecção da cor da pele dos indivíduos monitorados.

O quão isso pode ser errado, né? Tudo!

Reconhecimento facial por inteligências artificiais (IAs) são problemáticas. Elas (ainda) têm uma porcentagem de erro muito grande, os chamados falso positivos, que podem taguear alguém como “suspeito” sem, necessariamente, sê-lo. Algo mais ou menos parecido com que vive a imensa maior da população afro-brasileira ao adentrar em um espaços da minoria branca rica. Além disso, geralmente, essas tecnologias podem reforçar esses vieses e preconceitos por empresas, governos, programadores e bases de dados (sim, bases de dados também têm vieses). De modo geral, esse tipo de automatização pode reforçar “pressões” do estado sobre indivíduos e populações já marginalizadas.

Monitorar atividades nas redes sociais, contudo, já é algo feito por grupos de inteligências em diversos órgãos públicos dentro e fora do Brasil. Aferir o “sentimento” das redes é comum para detectar engajamentos e movimentos sociais. Podemos forçar um pouco e dizer que é “normal”. Contudo, não é difícil imaginar que cruzar esses dados com outras dados governamentais em busca de “vadiagem” ou “insurreições de movimentos sociais” possa gerar diversos questionamentos sobre predições (análises dos dados tendo em vista ações futuras) que podem emergir. Ao que parece, a ideia do Minority Report nunca sai da cabeça dos governantes.

Mas há quem já se adiantou.

A China faz isso já há alguns anos: se você vai para a praça protestar, coloca sua manifestação nas redes e é “pego” por uma câmera inteligente, é bem provável que seu score social (um tipo de score do Serasa deles, só que bem mais restritivo) vai baixar e, em alguns casos, você não pode nem mais sair de sua cidade por causa disso. É um tipo bem punitivo de vigilância estatal. Um tipo de panóptico inteligente. O Big Brother vive.

Em minha dissertação de mestrado, traço um pouco o panorama dos Centros de Comando e Controle Urbanos criados para a Copa do Mundo de 2014 que pretendiam se transformar em “panópticos governamentais” sobre as cidades-sede da competição. Em alguma medida, conseguiram. Mas seu controle estava mais para o ambiente urbano, trânsito, coordenação de forças de segurança pública, serviços públicos etc. Não tratavam de “vadiagem”. Pelo menos não à época.

No Smart Sampa o principal dedo na ferida vem ao reboque do reconhecimento facial, identificar a cor da pele das pessoas.

Mas, heim? Você pergunta. Apois! respondo.

Isso é ilegal? É. É descriminação do indivíduo por sua cor de pele. Mais uma vez, não é difícil imaginar que um indivíduo seja monitorado em vias públicas ou seja abordado apenas por sua “cor suspeita”. Isso é uma violação do direito básico de existência do indivíduo. É uma afronta à Constituição Federal.

Além de tudo isso, há outra questão que é preciso levar em consideração: os dados. Dados de reconhecimento, mídias sociais (que a maioria das pessoas publica livremente) e, por incrível de pareça, detecção de cor são pessoais – óbvio! A má gestão desses dados pode causar prejuízo aos indivíduos e comunidades e comprometer sua privacidade e segurança. Óbvio!

Enquanto tecnologia, as inteligências artificiais (IAs) não só más por si. Mas podem ser apropriadas, utilizadas de maneira errônea, equivocada ou com má intenção. Este projeto Smart Sampa parece ser uma junção dessas matrizes. Já é um projeto que nasce burro, é um “Dumb (burro) Sampa”.

Enquanto sociedade, temos que usar as tecnologias em ambientes e serviços públicos com muito cuidado. Discussões e aparagens de arestas são necessárias para prover a melhor utilização dessas tecnologias ao ambiente social ao, por exemplo, tentar mitigar seus vieses. Algumas simplesmente não são convenientes, como o reconhecimento facial automatizado por IAs.

E ponto.

Você pode ver a documentação do projeto clicando aqui. https://participemais.prefeitura.sp.gov.br/legislation/processes/209

Endereçamento do impacto das inteligências artificiais (IAs) no jornalismo: o ponto de vista de jornalistas e acadêmicos

Conhecemos inteligências artificiais (IAs), ou pelo menos seu conceito, desde os anos 1950 mas somente nas últimas duas décadas notamos o quando se entremearam na vida contemporânea, em uma sociedade cada vez mais datificada (ou dataficada, para alguns) – e até por isso mesmo. IAs podem produzir outputs, saídas, soluções, produtos etc., similares aos produzidos por humanos. Elas podem mimetizar ações humanas. No que nos tange, o jornalismo não escapa desta realidade.

Para Amaya Noian-Sánchez (2022), da Universidade Rey Juan Carlos de Madrid, IAs podem ajudar o jornalismo em:

– coleta e organização de dados

– detecção de informações

– verificação de desinformação (ex: deep fake)

– melhora da capacidade de trabalho do jornalista

– desenvolvimento e aprimoramento do jornalismo investigativo

Todavia, também cria desafios. O papel do jornalista da produção de notícias passa a ser remodelado, bem como este pode passar a ser substituído por IAs em algumas áreas da redação ou mesmo na produção de certos tipos de notícias, como esportivas, financeiras ou sobre condições climáticas – todas muito estruturadas em dados. Além disso, podem tirar do jornalista o papel de interação com as audiências.

Em verdade, a matriz entre IAs e jornalismo resulta no jornalismo automatizado ou jornalismo computacional ou jornalismo robotizado etc. Não importando sua denominação, este é um campo de estudos crescente nos estudos de jornalismo, especialmente jornalismo digital.

Um dos pontos importantes no jornalismo automatizado é compreender a relação de colaboração entre jornalistas e Inteligências Artificiais. Hoje há um gap de compreensão dos jornalistas de como IAs podem ajudar ou afetar seu trabalho, e isso, segundo Noian-Sánchez (2022), se desenvolve em medos e preconceitos dos profissionais frente essas novas tecnologias. E muito desse gap se dá pela falta de qualificação ou atualização tecnológica universitária e profissional.

Amaya Noian-Sánchez da Universidade Rey Juan Carlos de Madrid

O texto “Addressing the impact of Artificial Intelligence on Journalism: the perception of experts, journalists and academics” de Amaya Noian-Sánchez (2022) traz um bom panorama do impacto das IAs na vida de jornalistas e no contexto atual do jornalismo a partir do ponto de vista de profissionais e acadêmicos da área. Algumas ideias interessantes são levantadas, como a proposição de que jornalistas precisam desenvolver um perfil híbrido para conseguir trabalhar em colaboração com IAs. Outras discussões são abertas em controvérsias com os entrevistados, como por exemplo, o fato de que não há consenso se jornalistas precisarão ou não aprender a programar para lidar melhor com IAs em seu ambiente de trabalho informativo.

Os próximos anos, no entanto, nos reservarão novas oportunidades de observação sobre como IAs (re)agregarão o jornalismo e seus profissionais. Por ora, uma coisa é certa: o trabalho colaborativo entre jornalistas humanos e jornalistas robôs já é uma realidade irrefutável e que se estende por redações em toda aldeia global.

Referências:

Noain-Sánchez, A. “Addressing the Impact of Artificial Intelligence on Journalism: the perception of experts, journalists and academics”. Communication & Society. 35 (3), 2022, 105 – 121. Disponível em: <https://revistas.unav.edu/index.php/communication-and-society/article/view/41216>

Meu primeiro livro: Caboclos, Poetas e Zumbi

Livro "Caboclos, Poetas e Zumbi: poesias soteropolitanas" de Moisés Costa Pinto

Não é todo dia que publico um livro, e aqui está: “Caboclos, Poetas e Zumbi – poesias soteropolitanas” já está disponível para ser baixado em PDF, Epub e na Amazon (para vocês que tem Kindle. (Em breve teremos a versão imprensa para vocês desfrutar meus queridos poemas em tinta e papel).

Baixe o livro em PDF clicando aqui (GRÁTIS).

Baixe o livro em EPUB blicando aqui (GRÁTIS).

Baixe o livro pro seu Kindle clicando aqui.

Caboclos, Poetas e Zumbi: poesias soteropolitanas”

“Caboclos, Poetas e Zumbi: poesias soteropolitanas” coleta o que há de mais poético em Salvador, mais especificamente, a poesia e os momentos poéticos entre a Praça do Campo Grande, a Praça Castro Alves e o Pelourinho – lugares icônicos da capital baiana; os poemas trazem histórias, causos, sonhos e misticismos que imaginam diferentes Salvadores e soteropolitanos, que são, ao mesmo tempo, moldados e moldam a Cidade da Baía de Todos os Santos. 

As poesias soteropolitanas do livro são inspiradas em três lugares icônicos da cidade de Salvador: o Caboclo, no Campo Grande, a estátua de Castro Alves, na Praça Castro Alves, e a estátua de Zumbi dos Palmares, no Pelourinho; múltiplas histórias e personagens, a própria cidade sendo uma delas, são mobilizados para contarem poesias soteropolitanas. Morar no Rio Vermelho (boêmio e poético por natureza) há quatro anos me proporcionou um olhar mais poético sobre a cidade e sobre suas experiências vividas nos ambientes soteropolitanos, em especial no roteiro Praça do Campo Grande, Praça Castro Alves e Praça da Sé/Pelourinho: lugares que cheiram a poesia soteropolitana.

Ficha Técnica 

Editora: Publicação própria

Autor: Moisés Costa Pinto

Produção Executiva: Laíse Castro

Capa, ilustrações e projeto gráfico: Tuíris de Azevedo

Fotografia: Amanda Penna

Prefácio: Wesley Correia

Assessoria de imprensa: Dayanne Pereira (Conectada Comunicação Integrada)

Publico capítulo em livro em parceria com membros do GJOL

O ano de 2022 começou com mais uma publicação internacional de membros do GJOL. Suzana Barbosa, Mariana Almeida, Lívia Vieira e Moisés Costa (eu!) assinam artigo publicado no livro “Total Journalism: Models, Techniques and Challenges” (Springer Nature) produzido pelo Grupo Novos Medios da Universidade de Santiago de Compostela e editado pelos pesquisadores espanhóes Jorge Vázquez-Herrero, Alba Silva Rodríguez, Cruz Negreira, Carlos Toural e Xosé Lopes.

O capítulo é intitulado “Professional profile of the contemporary digital journalist” (Perfil profissional do jornalista digital contemporâneo) e pode ser encontrado no link da publicação disponibilizado pela  Springer: https://lnkd.in/d6PB7SK5 ou Web de Novos Medios: https://lnkd.in/dEwnuh8X

Centros de Comando e Controle Urbanos (CCCU) nas cidades

Artigo: “Centros de Comando e Controle Urbanos (CCCU): Sistemas Operacionais Urbanos, Smartsurveillance e Tecnologias Infocomunicacionais”

Noa Salvador: exemplo de Centro de Comando e Controle Urbano

Neste artigo propomos investigar os Centros de Comando e Controle Urbanos (CCCU), novas ferramentas para gestões urbanas baseadas em tecnologias infocomunicacionais. Partimos da conceituação do que seriam os CCCU e, em seguida, analisamos alguns dos seus impactos sobre as cidades, como a criação de sistemas operacionais urbanos (SOU), análises preditivas sobre camadas urbanas e o surgimento de smartsurveillances dos atores urbanos – três aspectos que dependem dos dados coletados pelas tecnologias infocomunicacionais (como sensores, hardwares tecnológicos,aplicativos, softwares de coleta, armazenamento, processamento e análise de dados etc.) instaladas nos CCCU. Nossa conclusão é de que Centros de Comando e Controle Urbanos podem contribuir para amplificar a noção de Estado-rede, e produzir novas camadas de controle sobre espaços e corpos urbanos.

Palavras-chave: Centros de Comando e Controle Urbanos, Sistemas Operacionais Urbanos, Tecnologias Infocomunicacionais, Smartsurveillances, Cibercultura.

Urban Command and Control Centers (UCCC) in cities

In this article we propose to investigate the Urban Command and Control Centers (UCCC), new tools for urban management accepted in infocommunication technologies. We start with the conceptualization of what UCCC would be and then analyze some of their impacts on cities, such as the creation of urban operating systems (OS), predictive analyzes on urban plans and the incident of smartsurveillances of urban actors – three aspects that depend on the data collected by infocommunication technologies (such as sensors, technological hardware, applications, software for collecting, storing, processing and analyzing data, etc.) installed in the UCCCs. Our conclusion is that the Urban Command and Control Centers can contribute to amplify the notion of the network-State, and produce new flags of control over spaces and urban bodies.

Keywords: Urban Command and Control Centers, Urban Operating Systems, Infocommunication Technologies, Smartsurveillances, Cyberculture.